Um encaminhamento judicial que, à primeira vista, poderia ser apenas mais uma etapa burocrática tem ganhado novos contornos no trabalho realizado pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal do Respeito às Políticas para as Mulheres (SerMulher). A chamada Sala Azul vem se consolidando como um espaço voltado à reflexão de homens autores de violência doméstica, sem perder de vista o papel central da rede de proteção às mulheres.
Os grupos reflexivos são destinados a homens encaminhados, em sua maioria, por determinação judicial, após casos enquadrados na Lei Maria da Penha. O objetivo desses espaços é atuar na prevenção da reincidência, promovendo a revisão de comportamentos e a compreensão das consequências da violência. Cada grupo é estruturado em 12 encontros e reúne cerca de 50 participantes divididos em duas turmas.
De acordo com a equipe técnica, o início do processo costuma ser marcado por resistência. Muitos participantes chegam com a percepção de que estão apenas cumprindo uma obrigação legal. “Já na entrevista, que é o primeiro contato com eles, percebemos sentimentos aflorados, de raiva, de injustiça…porém, é nesse contato inicial que são ouvidos e acolhidos, para adentrarem ao grupo um pouco menos rígidos e resistentes””, explica a técnica da SerMulher, Hellen Lira.
Os encontros são conduzidos por equipes multidisciplinares e estruturados em rodas de diálogo. Ao longo das atividades, são abordados temas como relações de poder, machismo, controle e ciúmes. A proposta é estimular a reflexão sobre padrões de comportamento que contribuem para a violência.
Segundo a facilitadora Vanessa Correia, a resistência inicial tende a diminuir com o avanço dos encontros. “Ela acontece principalmente nos três primeiros encontros. Muitos não falam, não olham. Depois há uma mudança gradual, quando começam a reconhecer situações vividas e a refletir sobre suas atitudes”, destaca.
A estratégia adotada pelo município busca ampliar o alcance das políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica. Ao atuar também com os autores, a gestão municipal reforça o caráter preventivo das ações, complementando o trabalho já desenvolvido junto às vítimas.
Esse atendimento ocorre de forma articulada com outros serviços da rede. Enquanto os homens participam dos grupos reflexivos, as mulheres em situação de violência são acompanhadas junto ao CRAM Centro de Referência de Atendimento à Mulher que oferece acolhimento, orientação social e jurídica e suporte contínuo.
A integração entre essas frentes permite não apenas o atendimento imediato, mas também o aprimoramento das políticas públicas, a partir das experiências e demandas identificadas no cotidiano dos serviços.
Com essa abordagem, a Sala Azul se insere como uma ferramenta complementar dentro da política municipal, contribuindo para interromper ciclos de violência e fortalecer ações voltadas à proteção, autonomia e segurança das mulheres.



