Emanuel Rocha
Enquanto o trabalhador encara a escala 6×1 sem direito a faltar, vereador escolhe quando aparece e nunca deixa de receber
Em Aracaju, a conta não fecha, e não é por falta de matemática, é por falta de compromisso. De um lado, está o trabalhador comum, que acorda cedo, enfrenta transporte lotado, cumpre jornada pesada, muitas vezes numa escala 6×1, e no fim do mês recebe R$ 1.621,00. Um salário que mal dá conta das despesas básicas, enquanto a vida segue apertada, sem espaço para erro e muito menos para faltas. Do outro lado, estão os vereadores da cidade, com salários de R$ 22.865,16, mais de 14 vezes o mínimo nacional, fora auxílios e benefícios que ampliam ainda mais essa distância. Um valor que deveria carregar junto responsabilidade, presença e respeito ao dinheiro público.
Mas a realidade incomoda. Há vereadores que simplesmente faltam às sessões, sem justificativa aceitável, sem prestar contas ao verdadeiro patrão, que é o povo. E aqui cabe uma pergunta direta, sem rodeio, se você, trabalhador, ganhasse esse valor todo mês, teria o luxo de faltar ao trabalho com frequência? A resposta é simples. Na vida real, faltar significa advertência, desconto no salário ou até demissão. Não existe essa margem de tolerância para quem vive do próprio esforço. Já no cenário político, alguns parecem tratar a função pública como um compromisso opcional, quase um favor que prestam à cidade.

Enquanto isso, a rotina da Câmara segue em ritmo confortável, com sessões concentradas entre terça e quinta, uma espécie de escala 3×4 que contrasta brutalmente com a realidade de quem sustenta a máquina pública com seu suor diário. O problema não é apenas o valor do salário, é a incoerência entre o que se ganha e o que se entrega, é a ausência de compromisso com a população, é a normalização da falta, do descaso e da desconexão com a vida real.
É preciso, sim, separar as coisas com justiça. Aos vereadores que cumprem seu dever, comparecem às sessões e tratam o mandato com seriedade, nada além do esperado, estão apenas fazendo aquilo para o qual foram eleitos. Não é favor, não é mérito extraordinário, é obrigação básica de qualquer agente público. Já os faltosos e desinteressados não falham apenas com a agenda, falham com a cidade, com o dinheiro público e com quem os colocou no poder. Agem com irresponsabilidade, desrespeito e um evidente desprezo por quem trabalha duro todos os dias para manter essa estrutura funcionando.
E que fique claro, mandato não é prêmio, é compromisso. Salário alto não é conquista pessoal, é investimento público que exige retorno. Quem acha normal faltar, receber bem e não dar satisfação não entendeu absolutamente nada sobre representar o povo. E talvez precise aprender da forma mais direta possível, nas urnas, quando o silêncio de hoje se transforma na resposta de amanhã.
* Emanuel Rocha é historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico



