Quase na entrada de Aracaju, entre sirenes que insistem em tocar e corredores que repetem a angústia de quem passa, o Hospital de Urgências de Sergipe-Huse- bate como um painel da saúde pública do Estado. Dentro de suas portas, o relógio não para: aparecem pessoas com dores desconhecidas, exames a confirmar, esperanças que ainda são frágeis. É nesse ponto em que a resistência dos enfermeiros, maqueiros, pessoal da limpeza e médicos encara os limites financeiros e estruturais do sistema. Dias atrás, cruzei aquele portão não como comunicador mas como amigo, levando um abraço a quem estava na UTI depois que uma doença inesperada piorou. E preciso confessar: fui pego de surpresa. Assim que entrei, vi mudanças que eu não esperava.

Macas novas, iluminação perfeita nos corredores, placas de orientação por todo lado, um cheiro de limpeza que antes faltava. Essa nova cara do Huse não apaga as lembranças ruins que eu trazia, mas prova que, com esforço, é possível andar para frente e que ali, de fato, as coisas estão mudando.
É verdade que a gente, por instinto, olha com desconfiança para tudo que o governo apresenta, e, em boa parte das vezes, a dúvida é justa. O currículo de promessas quebradas, espaços públicos esquecidos e prédios se desmanchando a olhos vistos alimenta em nós um olhar crítico quase automático. Entretanto, precisamos também saber dar o braço a torcer quando a mexida é de verdade. Reconhecer que algo melhorou não é puxar saco; É simplesmente sinalizar uma vitória que pode, no fim do dia, beneficiar a todos. Quando falamos do Hospital de Urgências de Sergipe, essa evolução salta aos olhos. A mudança está tanto no concreto novo quanto no cuidado com que cada paciente é tratado.
Outra coisa que me impressionou foi o atendimento. Da portaria à UTI, havia um toque de cuidado no ar que não passa despercebido. A recepção é mais acolhedora, os profissionais ficam mais atentos, e os médicos realmente escutam – uma atitude simples, mas decisiva. Todos sabem que hospital longe de ser um lugar confortável, mas onde há humanidade no trato o ambiente muda. O visitante se retira bem mais tranquilo. E o paciente percebe que não é apenas um número dentro de uma ficha.
No caso do meu amigo, percebi que ele estava sendo bem tratado. E isso fez toda a diferença. Ver o cuidado nos gestos, na escuta, no olhar atento de uma enfermeira ou no médico que explica com paciência — isso transforma o ambiente. Dá esperança. Dá dignidade.
Que bom ver mudanças concretas. Porque isso prova que, quando há vontade política e compromisso real com o serviço público, as coisas acontecem. E quando acontecem no maior hospital de urgência do estado, o reflexo se espalha por toda a rede — e por toda a sociedade.
Com tantas dificuldades ao nosso redor, é animador notar quando algo evolui positivamente. A modernização de um hospital público demonstra uma administração eficiente e injeta respeito em um cenário complicado. Não podemos permitir que esse avanço retroceda. É crucial que sejamos rigorosos, demandando preservação, constância e consideração pelos profissionais e pacientes. Talvez nunca alcancemos o hospital perfeito, mas podemos criar um ambiente mais acolhedor, onde ambos se sintam apreciados. Este é um ótimo ponto de partida. E um começo bem executado pode impulsionar uma transformação real na saúde pública.
O pontapé inicial foi dado, e isso já mostra um compromisso que deve ser valorizado. Claro que o caminho ainda é longo, e muitas melhorias ainda precisam acontecer. Se essa continuidade vai se manter, só Deus sabe. Mas devemos torcer para que sim — , independente de quem esteja no comando do hospital, da Secretaria de Saúde ou de partido A ou B. O que realmente importa, acima de tudo, é que os doentes, os funcionários e os parentes tenham dignidade. Sem isso, nenhuma reforma vale a pena.
Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.




