Se há riscos de contaminação de covid-19 entre os que possuem condições financeiras para comprar álcool em gel, máscaras de proteção facial e conseguem lavar as mãos com frequência, imagine para quem não tem nem acesso à água tratada e sabonete, entre outros itens de cuidados básicos. Esse é o dia a dia de pessoas que vivem em situação de rua: totalmente expostas ao novo coronavírus.
A doença que já matou quase 540 mil pessoas no Brasil, sendo mais de 5.800 em Sergipe, traz grandes ameaças à parcela da população que vive em situação de vulnerabilidade social. O Ministério da Saúde incluiu esse público entre os grupos prioritários para a vacinação contra a covid-19 logo após a aplicação dos idosos com 60 anos ou mais, institucionalizados, no início da campanha. Em alguns estados, a aplicação da 1ª dose nas pessoas em situação de rua teve início em fevereiro passado. Em Sergipe, a vacinação desse grupo começou no mês de junho.
Conforme o Plano Nacional de Imunização, esse público representa um total de 66.963 pessoas no país. Em Sergipe, 389 pessoas em situação de rua receberam a primeira dose de imunizante, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES). No entanto, apenas 43 delas concluíram o ciclo vacinal com a segunda dose.
Ainda conforme o boletim de vacinação da SES, divulgado no site Todos Contra o Corona nesta quinta-feira (15), a aplicação nesse público se concentrou em maior parte na capital, com 368 primeiras doses até o momento, e 43 referentes à D2 (segunda dose). Outras 44 pessoas foram vacinadas no interior sergipano.
Capital
Em Aracaju, a aplicação da vacina contra a covid-19 em pessoas em situação de vulnerabilidade social e que estão vivendo em abrigos, ocupações ou até mesmo nas ruas, foi orquestrada pelo programa Consultório na Rua, da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), que existe desde 2015 fazendo o acompanhamento desse público na capital. De acordo com a assistente social Maria Luzia Bispo, que faz parte do programa, em alguns grupos foi necessário muito diálogo para que pudessem entender a importância de se imunizar contra a covid.
“No início da vacinação tivemos muitos desafios. Havia uma certa desconfiança deles, porque tem pessoas que não gostam de vacina de uma maneira geral, e alguns tinham um certo receio de tomar porque, muitas vezes, estavam em situação de uso abusivo de álcool e outras drogas. Tivemos que dialogar bastante para desmistificar muita coisa com relação à vacina, mas o resultado foi positivo, porque os casos de recusa foram mínimos”, relata Maria Luzia.
A informação da assistente social chama atenção para um ponto específico: a imunização de pessoas que estão sob condições de uso abusivo de álcool e outras drogas, como é o caso de muitas em situação de rua. No entanto, de acordo com a médica infectologista Fabrizia Tavares, da SMS, não existe contraindicação para a vacinação contra covid-19 nesse sentido.
“A orientação é que se tenha uma avaliação médica de acompanhamento desse paciente alcoólatra ou dependente químico. Devido a suas condições de saúde, esses pacientes são considerados imunossuprimidos. Sendo assim, como em outras doenças da mesma categoria, não existe contraindicação. A resposta imunológica à vacina nesses pacientes é que deverá ser estudada futuramente”, afirma a médica.
Segundo a assistente social Maria Luzia, os pacientes que estavam mais debilitados não puderam ser vacinados, devido ao risco de terem reações e o quadro clínico agravado. O Consultório na Rua está fazendo o acompanhamento desses usuários.
Segunda dose
Em algumas cidades do Brasil, as prefeituras optaram por fornecer a vacina da Janssen às pessoas em situação de rua, por ser um imunizante de dose única. Em Sergipe, as primeiras remessas da Janssen chegaram no dia 25 de junho, quando a vacinação desse público já havia sido iniciada na capital (7 de junho). Portanto, grande parte recebeu a 1ª dose da vacina AstraZeneca/Oxford, e aguarda agora o prazo para a segunda dose.
Além disso, segundo a Comunicação da Secretaria Municipal da Saúde, alguns já tinham sido contemplados pelos critérios da população em geral, a exemplo de comorbidades e faixa etária. “Finalizamos a primeira dose no dia 09 de julho. Aqueles que ainda não tomaram a primeira dose serão encaminhados para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) que estão sendo ponto de imunização para covid-19”, reitera a pasta.
Segundo a assistente social Maria Luzia Bispo, muitas pessoas procuram os serviços do Consultório na Rua para acompanhamento médico em geral, portanto, há uma rotina de atendimento a elas, além das que estão nos abrigos da Prefeitura de Aracaju.
A SMS informou ao F5 News que o Consultório na Rua realiza, por mês, uma média de 350 atendimentos. Questionada sobre o que será feito para garantir que esse público complete o ciclo vacinal, a pasta informou que tem registradas todas as pessoas que tomaram a primeira dose e os seus respectivos locais, o que também contribuirá para a articulação da segunda dose. “A equipe Consultório na Rua em setembro, mês da segunda dose, ofertará novamente as duas estratégias de vacinação adotadas na primeira dose, a oferta de vacinação volante e ponto fixo de vacinação. As pessoas vacinadas foram orientadas sobre a importância da segunda dose e os serviços que ofertam cuidado a população em situação de rua seguem sensibilizando sobre a importância da imunização contra a covid-19 e, próximo à data do início da segunda dose, faremos a execução do plano de comunicação, com o apoio mais uma vez do Centro POP e PRD”, informou a assessoria da pasta.
Consultório na Rua
De acordo com a coordenadora do Consultório na Rua, Jayane Trindade, esse programa é uma estratégia de serviço público que foi instituída no ano de 2011 pelo Ministério da Saúde, mas implantado em Aracaju em junho de 2015.
“Tem seis anos de caminhada. É uma estratégia que foi pensada com o objetivo de garantir e ampliar o acesso da população de rua aos serviços de saúde”, explica a coordenadora.
O Consultório funciona de segunda à sexta-feira, das 7h às 19h, e conta com uma equipe multiprofissional, com médico clínico, enfermeiros, assistentes sociais, psicóloga e técnica de enfermagem. Recentemente a Prefeitura lançou mais um edital para processo seletivo simplificado, visando a contratação de mais um profissional redutor de danos e um técnico de enfermagem.
“O trabalho é feito de maneira itinerante. A equipe vai in loco, nas ruas, para poder ofertar esse cuidado com a saúde. A equipe tem um veículo furgão com uma estrutura no fundo com maca, armários, onde realizamos atendimentos de forma pontual, como pré-natal, acompanhamento de tuberculose, tratamento de sífilis, entre outros”, acrescenta Jayane.
Com a pandemia da covid-19, o Consultório na Rua aumentou a oferta de cuidados à saúde, bem como ampliou a carga horária e a equipe. “Para além das demandas que já fazem parte do Consultório na Rua, passamos a fazer rastreamento de sintomáticos e mapeamento epidemiológico nos abrigos. Aquelas pessoas que estão na rua e desejam ir para o abrigo para não ficar tão expostas, eles vão para o abrigo e a equipe passa semanalmente para fazer esse mapeamento, verificar sinais vitais, como elas estão. A assistência social implantou um abrigo de isolamento de casos suspeitos ou confirmados. E também fizemos testagem por períodos”, disse a coordenadora.
A Campanha de Vacinação para as pessoas em situação de rua, realizada pelo Consultório na Rua, durou cerca de 30 dias, com duas ofertas de estratégia: uma realizada pela equipe volante do consultório, que levava as doses aos locais onde essas pessoas costumam estar; a outra em um ponto fixo de vacinação na Unidade Básica de Saúde Maria do Céu, no Centro de Aracaju. Na circunstância da pessoa não conseguir se deslocar, a equipe ia até ela, ou a transportava até a UBS.
“Também foram contempladas as pessoas que estão em moradias irregulares, em ocupações, além das pessoas que estavam nos abrigos e instituições da assistência social, e aquelas pessoas que estavam no território, na rua. Foram essas três categorias contempladas. A equipe do Consultório fará a mesma logística para vacinar com a 2ª dose”, conclui Jayane.
Edição de texto: Monica Pinto
Por Laís de Melo VIA F5NEWS






